Pular para o conteúdo
Leo SoaresSEGURANÇA 360®Contato ↗
← Início
Segurança 360® · Artigo

O Brasil votou. Mas será que estamos preparados para os riscos que vêm depois das eleições?

Por Leo Soares · 26 de outubro de 2026

Uma eleição termina nas urnas. Seus impactos sobre a segurança, a economia e as operações podem continuar por muito mais tempo.

Independentemente de quem venceu, de quem perdeu ou de qual seja a sua posição política, existe uma pergunta que deveria estar na mesa de todos os líderes brasileiros nesta segunda-feira:

Sua empresa está preparada para continuar operando caso o ambiente político, social ou institucional se torne mais instável?

Não estou falando de alarmismo. Estou falando de gestão de riscos.

O segundo turno das eleições brasileiras de 2026 mobilizou uma estrutura nacional de segurança e monitoramento. Segundo balanço divulgado pela Polícia Federal em 26 de outubro, foram registrados 86 casos relacionados a possíveis crimes eleitorais durante o domingo de votação, com 74 pessoas conduzidas.

Também surgiram denúncias e investigações sobre dificuldades no transporte público de eleitores, evidenciando como uma questão aparentemente logística pode adquirir consequências sociais, jurídicas e institucionais.

Esses acontecimentos nos oferecem uma lição importante: segurança não se resume à presença policial, à proteção de instalações ou à resposta a incidentes.

Ela depende da integração entre pessoas, tecnologia, inteligência, processos, instituições e capacidade de decisão.

É exatamente essa a essência da doutrina Segurança 360®.

O erro de olhar apenas para o risco que já aconteceu

Em momentos de grande mobilização política, muitas organizações cometem um erro: esperam que o problema apareça para começar a agir.

Uma manifestação pode alterar a circulação de pessoas e mercadorias. Um bloqueio viário pode interromper entregas. Uma notícia falsa pode gerar decisões precipitadas. Um ataque digital pode comprometer serviços. Um episódio de violência pode colocar colaboradores e clientes em risco.

E tudo isso pode acontecer de forma interligada.

O risco raramente respeita a divisão entre departamentos.

O que começa como um problema de mobilidade pode se tornar uma crise operacional. O que começa como desinformação pode evoluir para uma crise reputacional. O que começa como uma falha tecnológica pode afetar a continuidade do negócio.

Por isso, precisamos abandonar a ideia de que segurança é responsabilidade exclusiva da equipe de segurança.

Os cinco pilares da Segurança 360® aplicados ao cenário brasileiro

1. Segurança Física

O primeiro cuidado é compreender a exposição real das operações.

Onde estão nossos colaboradores? Quais unidades dependem de rotas críticas? Há instalações, centros logísticos ou serviços que podem ser afetados por manifestações, aglomerações ou interrupções de acesso?

A mitigação começa pelo mapeamento de locais sensíveis, pelas rotas alternativas, pelos protocolos de proteção e pela capacidade de resposta.

O objetivo não é tratar manifestações legítimas como ameaças. É proteger pessoas e garantir operações seguras, respeitando direitos fundamentais.

2. Segurança Digital e de Dados

O ambiente eleitoral também exige atenção à desinformação, aos golpes digitais, à engenharia social e às tentativas de exploração de sistemas.

Empresas precisam reforçar autenticação, monitoramento de acessos, proteção de dados, verificação de comunicações e resposta a incidentes.

Uma informação viral não é necessariamente verdadeira. E uma decisão baseada em informação falsa pode gerar prejuízos reais.

3. Segurança Humana e Comportamental

Em ambientes polarizados, as pessoas podem ficar mais expostas a conflitos, ameaças, assédio e decisões impulsivas.

A organização deve proteger seus profissionais sem transformar diferenças políticas em critérios de tratamento.

Isso exige orientação clara, canais de acolhimento, comunicação responsável, treinamento e protocolos para situações de ameaça ou violência.

4. Segurança Estratégica e de Gestão

É aqui que o papel da liderança se torna decisivo.

O CEO, o CSO, o jurídico, as operações, a tecnologia e a comunicação precisam compartilhar a mesma leitura dos riscos.

Quais cenários podem afetar o negócio? Qual é o impacto financeiro de uma interrupção? Quem decide pela suspensão de uma operação? Quando ativar o comitê de crise? Como manter clientes e colaboradores informados?

Uma organização sem critérios claros de decisão pode transformar um incidente administrável em uma crise de grandes proporções.

5. Segurança Comunitária e Integrada

Nenhuma organização opera isoladamente.

Empresas dependem de bairros, cidades, serviços públicos, fornecedores, transportadores e comunidades.

Por isso, a cooperação com autoridades, entidades locais e parceiros é essencial para identificar situações de risco, compartilhar informações verificadas e coordenar respostas.

Segurança integrada não significa transferir responsabilidades. Significa reconhecer que muitos riscos ultrapassam os limites físicos e jurídicos da empresa.

O que eu faria nas próximas 72 horas como responsável pela segurança de uma organização?

Aplicaria três movimentos da metodologia Segurança 360®:

DIAGNOSTICAR: identificar a exposição de pessoas, instalações, rotas, fornecedores e serviços críticos. Diferenciar fatos confirmados, sinais de alerta e especulações. Priorizar riscos pela probabilidade e pelo impacto.

INTEGRAR: reunir segurança, operações, tecnologia, jurídico, comunicação e liderança. Definir responsáveis, canais de escalonamento, alternativas operacionais e critérios objetivos para ativação de contingências.

EVOLUIR: monitorar indicadores, acompanhar acontecimentos relevantes, testar planos de resposta e corrigir rapidamente as vulnerabilidades identificadas.

Na prática, eu acompanharia diariamente cinco sinais: incidentes envolvendo pessoas, interrupções de mobilidade, indisponibilidade de sistemas, ameaças digitais e impactos sobre a continuidade operacional.

E acrescentaria uma disciplina indispensável: não confundir divergência política com ameaça à segurança. O monitoramento deve se concentrar em condutas, eventos e riscos concretos, respeitando a privacidade e os direitos das pessoas.

O maior risco pode ser a falsa sensação de normalidade

Não é porque a votação terminou que todos os riscos desapareceram.

Também não significa que o Brasil esteja necessariamente caminhando para uma crise.

Significa que gestores responsáveis precisam estar preparados para diferentes cenários, sem apostar suas decisões em previsões políticas ou narrativas de redes sociais.

Ao longo da minha carreira, estruturando operações de segurança em empresas de tecnologia, mobilidade e logística, aprendi que o valor da segurança não está apenas na capacidade de responder quando algo acontece.

Está principalmente na capacidade de antecipar, conectar informações e permitir decisões melhores.

O Brasil precisa dessa mentalidade nas empresas, nas instituições e nas comunidades.

Não importa quem ocupa o poder: segurança precisa ser tratada como política de gestão, não como instrumento de disputa política.

Afinal, proteger pessoas, preservar direitos, manter serviços essenciais e garantir a continuidade das operações são responsabilidades que não terminam com uma eleição.

Proteger exige enxergar o todo.

E deixo uma pergunta para os líderes que estão lendo este artigo:

Se amanhã um evento político ou social interrompesse parte da sua operação, sua empresa teria um plano de resposta — ou descobriria suas vulnerabilidades durante a crise?


Leo Soares
Especialista em Segurança 360® | Chief Security Officer | Autor e palestrante

Continue explorando a Segurança 360®

Conheça a doutrina ↗ · Entre em contato ↗